Não planejar o pedal adequado para TPM ou com menstruação

Você é guerreira e adora o  vento gelado no rosto, a superação de uma subida íngreme, a paisagem se desdobrando no alto da montanha – pedalar é uma paixão que exige preparo do corpo e da mente. Principalmente  quando você está na TPM ou naquele terrível segundo dia da menstruação, com fluxo intenso. Mas você quer muito ir pedalar. Para muitas ciclistas isso é possível, para algumas, a cólica ou o volume do fluxo tornam o pedal desconfortável e preferem abortar. Porém, mesmo que o impacto do ciclo não seja tão forte, é preciso que as mulheres nestas fases façam um planejamento mais fino. Não ajustar a nutrição e a hidratação de acordo com as flutuações hormonais que ocorrem ao longo do mês é um erro comum que pode fazer seu pedal sofrer intensamente na TPM e durante a menstruação. Tratar o corpo feminino como se fosse uma máquina linear, com demandas constantes, é ignorar uma complexa dança hormonal que influencia desde o metabolismo energético e o equilíbrio de fluidos até o humor, a percepção de dor e a capacidade de termorregulação.

É hora de desmistificar a ideia de que “é tudo psicológico” ou “é só aguentar”. As mudanças fisiológicas são reais e, ao compreendê-las e adaptar sua estratégia nutricional e de hidratação, é possível transformar um período potencialmente desafiador em uma fase de pedal com muito mais conforto, força e foco. A chave está em reconhecer o erro e adotar uma abordagem mais inteligente e empática com o próprio corpo. Eu mesma já desisti de ir pedalar porque estava insegura com o volume do fluxo, ou porque estava com um pouco de cólica, ou mesmo estando no fim do fluxo, mas tendo que enfrentar muito sol e calor. Eu realmente não passava bem com calor nessa fase do ciclo.

A Dança Hormonal: Como o Ciclo Menstrual Afeta Seu Corpo no Pedal

O ciclo menstrual é dividido principalmente em duas fases: a fase folicular (do primeiro dia da menstruação até a ovulação) e a fase lútea (da ovulação até o início da próxima menstruação). É na fase lútea (que inclui a TPM) e na fase menstrual que as ciclistas costumam sentir mais os impactos.

Na Fase Lútea (Pico de Progesterona e Estrogênio no Início):

  • Aumento do Metabolismo Basal: O corpo pode queimar ligeiramente mais calorias em repouso.
  • Maior Preferência por Gordura como Combustível: Hormônios elevados podem favorecer o uso de gordura, mas a capacidade de usar carboidratos pode ser marginalmente reduzida.
  • Aumento da Temperatura Corporal Basal: Uma sensação de “estar mais quente” é comum.
  • Retenção de Líquidos: Flutuações hormonais podem levar ao inchaço e à sensação de peso.
  • Sintomas de TPM: Irritabilidade, fadiga, dores de cabeça e desejos alimentares são comuns.

Na Fase Menstrual (Baixos Níveis de Estrogênio e Progesterona):

  • Perda de Sangue: Pode levar à perda de ferro, com risco de fadiga e diminuição do transporte de oxigênio.
  • Inflamação: O corpo pode estar mais propenso à inflamação e dores (cólicas).
  • Baixa Energia: Os níveis hormonais mais baixos podem contribuir para uma sensação geral de letargia e fraqueza.

O Erro: A Alimentação Neutra em um Corpo em Constante Mudança

O maior erro é a abordagem “one-size-fits-all”  (modelo único) para a nutrição. Se você pedala e se alimenta da mesma forma em todas as fases do seu ciclo, está ignorando as sinalizações do seu corpo e privando-o do suporte nutricional específico de que precisa. Isso se manifesta em:

  • Fadiga Inexplicável: O corpo pede mais energia, mas não a recebe de forma otimizada.
  • Queda de Performance: A força, resistência e velocidade podem diminuir sem um ajuste adequado.
  • Cãibras Acentuadas: O desequilíbrio eletrolítico e a inflamação podem ser potencializados.
  • Desconforto Gastrointestinal: Flutuações na motilidade intestinal podem ser exacerbadas pela falta de atenção à dieta.
  • Dificuldade na Recuperação: O corpo já está sob estresse e uma nutrição inadequada pode prolongar o tempo de recuperação.
  • Excesso de Calor e Desidratação: A elevação da temperatura basal, aliada a uma hidratação não ajustada, pode levar a um superaquecimento e desidratação mais rápidos.

Estratégias para Melhorar o Pedal na TPM e Menstruação

Para corrigir o erro de não ajustar a nutrição ao ciclo, a ciclista precisa adotar uma mentalidade proativa e estratégica, focada em fornecer ao corpo o que ele precisa, quando precisa.

1. Hidratação Reforçada: Seu Escudo Contra o Calor e a Retenção

A hidratação é sempre vital, mas na TPM e durante a menstruação, ela ganha uma importância redobrada.

  • Aumento da Necessidade: As flutuações hormonais podem afetar o equilíbrio de fluidos e a regulação da temperatura corporal. Na fase lútea, o aumento da temperatura basal e a possível retenção de líquidos exigem mais água para manter o corpo fresco e os eletrólitos equilibrados. Durante a menstruação, a perda de sangue também pode impactar o volume de fluidos.
  • Estratégia:
    • Beba Constantemente: Aumente a ingestão de água e líquidos ao longo do dia, e não apenas durante o pedal. Mantenha uma garrafa de água sempre à mão.
    • Eletrólitos são Seus Amigos: Para pedais longos ou intensos, ou em dias de maior calor, bebidas eletrolíticas são essenciais. Elas ajudam a combater a retenção de líquidos (equilibrando o sódio) e a prevenir cãibras, além de facilitar a absorção da água. Não se apoie apenas na água pura, pois isso pode diluir ainda mais os eletrólitos e agravar o desequilíbrio.
    • Água de Coco e Caldos Leves: Excelentes fontes de eletrólitos naturais para manter a hidratação e repor minerais.

2. Combustível Inteligente: Carboidratos e Gorduras na Medida Certa

  • Carboidratos para Sustentação:
    • Na TPM/Fase Lútea: Como o corpo pode ter um metabolismo basal ligeiramente mais alto e, em alguns casos, uma leve resistência à insulina, priorize carboidratos complexos (grãos integrais, batata doce, legumes) para uma liberação de energia mais constante e para auxiliar na estabilidade do humor. Aumente ligeiramente a ingestão calórica total se sentir mais fome.
    • Na Menstruação: Mantenha a ingestão de carboidratos complexos para sustentar a energia e combater a fadiga. Carboidratos simples podem ser usados estrategicamente durante o pedal para boosts rápidos, mas sempre acompanhados de eletrólitos e hidratação.
  • Gorduras Saudáveis para Hormônios e Redução da Inflamação:
    • Sempre Importantes, Especialmente Agora: Inclua fontes de ômega-3 (peixes gordos como salmão, sementes de chia, linhaça, nozes) e outras gorduras monoinsaturadas (abacate, azeite de oliva extra virgem). Essas gorduras são precursoras hormonais e têm potentes propriedades anti-inflamatórias, o que pode ajudar a amenizar cólicas e dores musculares.

3. Micronutrientes Essenciais: Aliados Poderosos

  • Ferro:
    • Por Quê? A perda de sangue durante a menstruação pode levar à deficiência de ferro, o que resulta em anemia ferropriva, causando fadiga extrema, falta de ar e queda drástica de desempenho. Ciclistas já têm um risco maior devido à demanda de oxigênio.
    • Estratégia: Consuma alimentos ricos em ferro heme (carnes vermelhas magras, fígado, frango) e ferro não-heme (feijão, lentilha, espinafre, tofu). Combine fontes de ferro não-heme com alimentos ricos em Vitamina C (laranja, acerola, pimentão) para otimizar a absorção. Uma suplementação de ferro, se houver deficiência confirmada por exames, deve ser orientada por um profissional.
  • Magnésio:
    • Por Quê? Fundamental para mais de 300 reações enzimáticas, incluindo contração e relaxamento muscular, produção de energia e função nervosa. A deficiência de magnésio é frequentemente associada a cãibras e irritabilidade.
    • Estratégia: Inclua alimentos como sementes (abóbora, girassol), nozes (amêndoas, castanha de caju), vegetais de folhas verdes escuras, abacate e chocolate amargo. A suplementação pode ser considerada para aliviar sintomas de TPM, como cólicas e dores de cabeça.
  • Cálcio:
    • Por Quê? Essencial para a função muscular, saúde óssea e transmissão nervosa.
    • Estratégia: Laticínios, vegetais de folhas verdes (couve, brócolis), sardinha, leites vegetais fortificados.
  • Vitaminas do Complexo B:
    • Por Quê? Cruciais para o metabolismo energético e a função cerebral. Podem ajudar a mitigar a fadiga e a irritabilidade.
    • Estratégia: Carnes, ovos, grãos integrais, legumes, vegetais de folhas verdes.

4. Gerenciamento do Calor: Estratégias de Conforto

Devido à elevação da temperatura corporal basal na fase lútea, o desconforto térmico pode ser maior.

  • Hidratação Fria: Beba líquidos frios antes e durante o pedal.
  • Vestuário Adequado: Opte por roupas leves, respiráveis e de cores claras.
  • Planejamento do Horário: Se possível, pedale nos horários mais frescos do dia para evitar o pico de calor.
  • Resfriamento Externo: molhe a nuca, cabeça e braços quando fizer paradas e tiver alguma torneira ou água sobrando. Melhor ainda se tiver uma cachoeira: não entre inteiramente, mas resfrie-se.

Pedalar menstruada às vezes é incômodo às vezes não. Isso é muito de cada mulher. O importante é cuidar de você, seja abortando um pedal ou cuidando da hidratação e da nutrição para se sentir bem do ínicio ao fim da trilha. 

O corpo feminino é um universo de adaptações. Ignorar as nuances do ciclo menstrual na sua estratégia nutricional e de hidratação é perder uma oportunidade valiosa de otimizar sua performance e bem-estar. Ao abraçar essas especificidades e ajustar seu plano, você não apenas corrige um erro comum, mas também empodera seu pedal, transformando os desafios hormonais em uma fonte de força e compreensão. Que sua jornada seja sempre livre de dores desnecessárias, repleta de energia constante e em perfeita sintonia com a incrível capacidade de adaptação do seu corpo!

E partiu pedal!

ARTIGOS DE REFERÊNCIA

Campbell, B. I., Zourdos, M. C., & Schoenfeld, B. J. (2017). International Society of Sports Nutrition position stand: nutritional considerations for female athletes. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 14(1), 1-19.Acessado em 19 de outubro de 2025 em https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12970-017-0171-y

McLellan, T. M., & Rattray, B. (2014). Heat stress, the menstrual cycle and exercise performance. Sports Medicine, 44(2), 263-277.Acessado em 19 de outubro de 2025 em https://link.springer.com/article/10.1007/s40279-013-0112-7

Elliott-Sale, K. J., Minahan, C., de Sá Souza, R. L., Drummond, M. J., Currell, K., Pedersen, B. K., & Tenforde, A. S. (2019). The Effects of the Menstrual Cycle on Exercise Performance: A Review and Implications for Female Athletes. International Journal of Sports Physiology and Performance, 14(10), 1269-1277.Acessado em 19 de outubro de 2025 em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31536648/

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